quarta-feira, 8 de abril de 2009

O Cristo histórico


Antes de nos aprofundarmos na análise da humanidade e historicidade de Jesus, sentimos a necessidade de elucidar nosso objetivo final. Não é nossa intenção falar de religião, mesmo porque se analisarmos Cristo veremos que ele era um ser a-religioso. Mas porque sempre que se faz uma referência a Cristo, vinculamos ao falar de religião? Há com certeza toda uma estratégia nada inconsciente, planejada para não tomarmos consciência da ação libertadora que o estudo do Cristo histórico nos trás. Porque quando falamos de Hitler, não pensamos nem um pouco em seu fanatismo religioso, pois foi de fato provado pela história que tinha suas crenças? Falamos de Ghandi e de outros grandes homens e raramente os ligamos as suas crenças. Mas quando o assunto é Jesus Cristo a coisa começa a ficar diferente, e preferimos silenciarmos e deixar que a religião trate do assunto. Por quê? Porque como disse anteriormente (levando em consideração também o preconceito que isso envolve), estudar o Cristo homem pode trazer a consciência do processo libertador da humanidade e será com certeza uma pedra no sapato dos que detêm o poder de oprimir.
A primeira lição que aprendemos no nosso estudo do Cristo histórico é de sua consciência de um ser que pode e deve modificar a “realidade”. Como disse o sábio Paulo Freire, a realidade é construída e não é, como muitos pensam. O homem é ser histórico e isso porque é ele quem constrói a história e não ao contrário. Ele não deve ser moldado passivamente pelas circunstâncias, não deve tomar a forma daquilo que impõem a ele sem questionamentos, não deve deixar-se rotular por conceitos criados com o fim de fazer separação na humanidade em detrimento de uma lógica elitista. Cristo modificou a História, isso é fato. Ele provou com sua vida que o homem tem o poder de modificar as circunstâncias, provou que a realidade pode ser construída na prática de um ideal, e provou que ser livre é não deixar-se rotular. Os rótulos são criados, como disse anteriormente, para dividir a humanidade, anulando todo o sentimento de irmandade que impede guerras, ambições e injustiças. Na religião temos uma infinidade de rótulos que mais parece uma feira de produtos para todos os gostos. Somos católicos, evangélicos, espíritas, umbandistas, etc. Na política somos de esquerda ou de direita. Somos modernos, casuais, contemporâneos, temos um time de futebol (isso é máximo), uma escola de samba, uma nação (que certamente morreríamos por ela, concordam?). Cristo era livre disso. É só fazer uma análise de sua historicidade e chegaremos a essa conclusão.
Mas foi combatendo dois poderes que Cristo sofreu na própria pele toda a ira daqueles que não estavam satisfeitos com sua consciência histórica. Esses poderes eram o religioso e o político. O primeiro poder, o religioso, queria moldá-lo a pensar como estava em suas tradições e costumes. Queria torná-lo um ser que concordasse com o monopólio do conhecimento de Deus que só os fariseus, saduceus e outros eus tinham. Queriam esses que ele se silenciasse diante da diferenciação daqueles que detém o conhecimento de uma “verdade” e daqueles que são “massa de manobra, rebanho de ignorantes e não-iluminados”. Cristo trouxe o conhecimento de Deus para o mais simples, para o pobre, para o excluído e isso incitou à ira daqueles que estavam prestes a perder esse monopólio fantástico: Deus. O segundo poder que combateu foi o político, com sua negação do poder. Cristo negou toda forma de poder na sua pessoa. Há um episódio em que é relatado que ele fugiu para o monte quando o quiseram fazer rei. Foi perseguido por sua postura a-religiosa diante dos judeus, mas foi preso político e condenado por não se submeter às autoridades constituídas (o que os evangelhos dizem ser uma cilada para ele). Ensinou a “dar a César” somente o que era de César, mas nunca a sua própria liberdade e nem sua consciência histórica e humana.
Cristo é o arquétipo do homem integral, ou seja, modelo do homem holístico que enxerga a humanidade sem separações e sem diferenças. É modelo do homem católico (fazendo um trocadilho, pois católico quer dizer universal). Não teve preferência pelos pobres como afirma certa Teologia, simplesmente entre os ricos não foi bem quisto. “Veio para os seus, mas os seus não o receberam”, o que fez com que ele se identificasse com os excluídos, com os que sofrem, com aqueles que não conhecem seus direitos, com os pobres, com os deixados a margem, mas nunca deixando de amar toda a humanidade. Esse Cristo homem que modificou a História precisa e deve ser estudado sem preconceitos por todo historiador que quer ter a consciência de sua historicidade. Ter a consciência de Cristo é saber que somos agentes de transformação histórica e não meramente receptáculos passivos daqueles que fazem separação para melhor darem vazão aos seus desejos de poder e de domínio.

Um comentário:

  1. Anderson,
    A despeito do envolvimento cultural, do qual poucos escapam, você tem lá a sua razão. Me refiro à nossa cultura, chamada imprópriamente de judaico-cristã, quando na realidade é heleno-judaica. Quero dizer com isso, que ela é de origem grega e não judaica como se faz acreditar. A História não escapou da influência religiosa, portanto, quando se fala em Jesus histórico, fala-se de um personagem criado por historiadores. É, infelizmente, foi isso mesmo. Sem querer ofender a ninguém, naturalmente. A sua razão se releva quando você se refere ao Cristo interior, que poderia ter qualquer nome ou qualquer história. Esses valores não alteram essa realidade, porque uma verdade não anula a outra. Todavia o historiador Arnold J. Toynbee previu que o grande confronto do século XXI se dará entre cristãos e islâmicos. Manifestações disso já se nota no mundo inteiro. Esvaziar essas crenças com a verdade não esvazia, necessáriamente, a força íntima de ninguém. Sugiro a leitura de um ebbok: Jesus Cristo - um presente de gregos, em http://www.ebooksbrasil.org/ dowload gratuito, que vai esclarecer alguns aspectos, ainda na sombra, sobre essa questão. A paixão religiosa, que ambas as crenças heleno-judaicas despertam, já fez muito mal à Humanidade porque o indivíduo se sente ofendido com a descrença do semelhante.Só isso já mostra a fragilidade da paz e da harmonia que preconizam.Boa leitura e bom proveito.

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