quarta-feira, 8 de abril de 2009

A conversão do Jesus-cristão


Há muito estive pensando em iniciar um estudo sobre a cosmovisão (visão de mundo) de Jesus. Queria entender profundamente como Cristo via o mundo, a humanidade, a morte, a vida, o prazer, os fenômenos humanos e tudo aquilo que nos inquieta e nos deprime por não termos nossas opiniões formadas. Mas entendendo profundamente a dúvida e a necessidade das pessoas que dificilmente abrem mão de algo “sólido” como a doutrina cristã, decidi (e isso ousadamente) construir minha própria opinião sobre Jesus baseado unicamente nos evangelhos sem a “ajuda” da religião. Fiquei espantado quando percebi que o Jesus cristão se desviou (desviar na religião é não estar mais no caminho certo). Isso pode parecer forte para muitos mais é a pura verdade. O Jesus cristão está desviado e precisa se converter. O Jesus cristão é o Jesus das projeções humanas, é o Jesus das nossas comodidades, das nossas necessidades de poder, domínio, riqueza. O Jesus cristão é uma salada de ingredientes vindos do Judaísmo, misturado a uma pitada de Constantino, outra de Roma, com gosto de Reforma Protestante e Pentecostalismo americano. Mas como diria Jack, o Estripador: “vamos por partes”. Para se iniciar qualquer estudo sobre a cosmovisão de Jesus, tive que fazer uma separação entre o Jesus Jesus e o Jesus cristão. Escrevo aqui 3 tópicos que mostram como o Jesus cristão se desviou e como ele precisa se converter novamente (se é que um dia ele foi convertido). São eles: 1-Jesus e a religião/ 2- Há relação alguma entre Jesus e o Cristianismo?/ 3- Parece que o Jesus cristão se desviou no mundo!
1- Jesus e a religião
Nesse primeiro tópico vou ser bastante conciso e preciso, pois no meu texto “Manifesto de um ex-religioso” já demonstrei minha opinião quanto ao fenômeno humano chamado religião e sua incoerência ao Evangelho. A religião é a negação de tudo o que Jesus falou e veio fazer, isso é fato. Primeiro porque a religião ,ou religação, é parte do esforço humano de alcançar algo ridículo. Falo ridículo no sentido de como um Ser finito (o homem) irá alcançar um Ser infinito (Deus)? Isso é ridículo, inconcebível como diria Agostinho de Hipona! Nossas obras humanas (religião) nos ligariam a Deus? Talvez aos deuses pagãos sim, pois esses eram iguaiszinhos as projeções humanas. Um sábio uma vez disse algo interessante: “o homem criou a religião para se achegar a Deus, Deus enviou Jesus para se achegar ao homem”. A visão do Jesus Jesus sempre foi essa de que Ele (representando Deus) deu-se a conhecer ao homem. Nascido no seio da religião judaica ele via o quão frustrante e improdutivo eram as obras dos homens religiosos. Foi o tio de Jesus que uma vez disse: “Bendito seja o Senhor, Deus de Israel, porque visitou e redimiu o seu povo”. Em Jesus Jesus se cria que era a sua visita quem nos redime, já no Jesus cristão se crê que é a nossa visita a alguma religião ou algum Templo que nos redimirá.
2- Há alguma relação entre Jesus e o Cristianismo?
Não, não há nenhuma relação. Não existe a palavra Cristianismo no Novo Testamento e nunca isso saiu da boca de Jesus. O que se tem na Bíblia é o termo “cristãos” sendo usado de maneira maldosa e no sentido pejorativo por aqueles que perseguiam os discípulos de Jesus, o Cristo. O Cristianismo como uma religião, como um corpo de doutrinas só veio a aparecer no séc.V com a pseudo-conversão de Constantino. Foi Constantino misturando paganismo romano, religião e política que fundou o fenômeno conhecido hoje como Cristianismo. O pior é que pensam que o Cristianismo é a religião oficial de Jesus. É sim a religião oficial do Jesus cristão, mas do Jesus Jesus nunca foi e nunca será. Em seus discursos Jesus sempre dizia que “era chegado o Reino de Deus”, mas nunca disse que se fundaria um Reino Cristão (que mais se parece um Império do que Reino). Uma vez indagado sobre o Reino de Deus disse que ele não vem com aparência humana e nem se diz: “está aqui ou ali’. “O Reino de Deus esta dentro de vós” disse ele, o que mostra como ele nunca quis erguer nada fora do coração humano. O Jesus cristão é um arquétipo humano da religiosidade, da materialidade, da aparência, de tudo o que precisa ser imposto sem ser proposto. O Jesus Jesus plantava sementes na subjetividade do coração, já o Jesus cristão constrói prédios soberbos na objetividade e brevidade do mundo. Quão desviado o Jesus cristão esta! Mas já dizia o Mestre: os últimos serão os primeiros, os humildes serão exaltados e os orgulhosos abatidos. Acrescento ainda que aqueles que se acham salvos estão perdidos e aqueles que andam na perdição serão encontrados por Deus. Há um problema muito grande hoje no mundo a ser resolvido: Pregar a todos que o Jesus Jesus não tem nada a ver com o Jesus cristão e sua religião cristã. As pessoas frustradas com a religião acabam assimilando suas revoltas ao Jesus Jesus que não tem nada a ver com a história. Marx estava certo quando disse que “a religião é o ópio do povo” e também Nietzsche quando declarou “Deus está morto”. O “Deus” que se Nietzsche referia era o deus cristão que já nasceu morto e continua morto ao curso da história. Aliás, a morte é sua mais fiel companheira. É só conhecer um pouco da História do Cristianismo e verás quão manchada de sangue esta as mãos dessa religião.
3- Parece que o Jesus cristão se desviou no mundo!
O Jesus cristão se perdeu no mundo literalmente. Tanto no mundo como lugar de morada dos seres humanos, quanto no mundo conceito, expressão e significado. Quando os discípulos de Jesus disseram “não ameis o mundo” ou “ não tenham amizade com o mundo”, eles queriam expressar o significado de uma palavra grega que representava basicamente todo sistema humano falho, dominador e manipulador e não um lugar. Mundo para os gregos tinha pelo menos três significados: o cosmos, os sistemas humanos dominadores e a humanidade. Foi ai que iniciou um grande problema entre os cristãos que passaram a interpretar mundo como um local fora da igreja, dos Templos e do Cristianismo. Tudo que não era cristão era pagão e entregue ao diabo. O Jesus cristão se confundiu e se perdeu no mundo quando interpretou o mundo como um local ruim, enquanto o que se quis dizer era que não se deveria amar o mundo sistema, mundo espírito (projeções humanas). É só parar para refletir e veja como o Cristianismo interpreta o mundo hoje. Mundo para o Jesus cristão é tudo o que não aceita sua religião, enquanto que para o Jesus Jesus é tudo o que impõe, tudo o que manipula o homem, tudo que divide e faz separação entre santos e profanos, ricos e pobres, sacerdotes e leigos. Mundo para o Jesus Jesus é esse grande e poderoso sistema religioso que domina, manipula, subjuga e se arroga como a “verdade”, desviando pessoas sinceras do Caminho verdadeiro. Precisamos converter o Jesus cristão e isso se ele quiser, pois acho que ele se tornou tão rico e poderoso que dificilmente reconheceria seu desvio.
(Anderson)

Ultimamente tenho pensado muito sobre essa palavra: religião. Aliás, desde quando tive a compreensão de mim mesmo como humano consciente e pensante, a religião sempre encontrou em mim motivo de severas reflexões. Fazer o quê quanto as minhas reflexões? Quem me dera fosse aquele ser que prefere não pensar profundamente sobre as questões fundamentais dessa vida, mas que deixa ser levado pela leveza encantadora do senso comum, da normalidade e da tradição tão bem construída e fixada. Pobre de mim que não se satisfaz com o “óbvio”, com o que se pôs e se estabeleceu, e assim “é” e ponto final. Mas quanto mais luto contra esse desejo que arde dentro de mim de busca por uma “verdade” e prefiro me entregar ao senso comum (pois isso me parece mais conveniente), mais me sinto aguilhoado por esses “ferrões” espirituais que me tiram o sono. Fazer o quê? Correr não adianta, pois aonde vou vai comigo essa insatisfação com o que está “estabelecido”. Foi assim que aconteceu quando comecei meus questionamentos em relação à maior obra-prima já erguida pelo coração humano: a religião.
A religião sempre fez parte de minha vida. Os assuntos religiosos sempre me foram muito pertinentes. Às vezes posso estar desligado do mundo e tudo o mais ao meu redor, mas quando ouço comentários que envolvam a religião, me ligo ao mundo e fico-me como um grande curioso a prestar atenção aos comentários alheios. Hoje sei exatamente porque isso se sucedia a mim. Confundia gravemente minha curiosidade quanto à religião com a busca do divino. Tudo o que parecia divino era-me fascinante, fantástico, capaz de me excitar e mover-me o espírito. Lembro-me do meu fervor católico e meu desejo de ser padre. Lembro-me da minha curiosidade quanto ao espiritismo, frustrada depois de ouvir uma palestra sobre a origem do sofrimento humano. Lembro-me de minha fascinação pelo místico, pelo oculto e por toda a religião que se arroga no direito de explicar meus questionamentos interiores. Lembro-me (e isso me é tão recente) de minha devoção evangélica que me tirou do mundo e do convívio dos pseudo-apelidados ímpios. Mas vamos lá, vamos direto ao assunto. Essas lembranças só me fazem refletir o quanto à religião foi importante pra mim e ao mesmo tempo foi pra mim uma grande e admirável torturadora. Deve ser por isso que reconheci aqui por momentânea inspiração, que a religião é “a maior obra-prima já erguida pelo coração humano”, lembram? Depois que o homem comeu da “árvore do conhecimento do bem e do mal”, a semente desse fruto se enraizou bem no profundo de seu âmago. Sendo assim, tudo o que o ser humano cria (diferente de Deus que Crea), tudo o que expeli, tudo o que exterioriza tem conseqüências de “bem e mal”. Por isso e tão somente por isso a religião ser tão “boa e má” ao mesmo tempo.
Partiremos do princípio então. Chega de delongas. Etimologicamente religião vem do latim “religare”. A expressão denota o desejo de religação do homem ao divino, entendido assim na metáfora do Gênesis, onde o homem se desliga de Deus sendo expulso do paraíso. O homem entende que precisa se religar novamente ao divino e assim providencia a religião. Engraçado que analisando a religião nos dias atuais como elo de ligação, de unidade, vemos o quão equivocado seu significado possa parecer. Contemporaneamente a religião tem sido a maior divisora da humanidade. Vide as “guerras santas” religiosas do islamismo, vide os conflitos entre católicos e protestantes, e também as muitas denominações evangélicas “nascentes” e “tradicionais” em nosso País, reforçando a idéia de divisão e não de religação e ajustamento.
Quando digo que a religião é a “maior obra-prima já erguida pelo coração humano”, estou tão certo disso como estou certo de que sou diferente dos animais. Deus não tem nada a ver com a religião. Deus apenas permite (acredito eu) sua existência para que um dia o homem se conscientize de suas criações impotentes e se volte para o que é perfeito e não possui o germe do bem e do mal. Deus (acredito eu) está além do bem e do mal, da lei da causa e efeito e de tudo o que é humano (apesar de Deus ter uma humanidade profunda). As escrituras contam um relato muito interessante. Dizem elas que quando o povo de Israel estava em crise por causa de guerras e muitas perseguições, trataram logo de recorrer a um profeta exigindo um rei que governasse sobre eles. As escrituras dizem que Deus não aprovou a atitude do povo, mas permitiu em respeito às escolhas humanas. Saul foi o rei e seu reinado fez florescer o germe do “bem e do mal”. Como se diz na pretensa Teologia, ali nesse episódio aconteceu não “à vontade decretiva de Deus”, mas a sua “vontade permissiva”. O homem sempre precisou de suas “criações” (não é a toa que a tentação do éden era achar que seria Deus) para “sobreviver”, para se sentir “seguro” e dono de si mesmo. É essa força motivadora que o levou a criar a Lei, o Estado, a Nação, o Direito, a O.N.U., a Instituição (seja ela qual for). Sim, é claro que reconheço o “bem” para a humanidade que essas abstrações trazem, mas também não posso deixar de reconhecer o mal. Elas trazem ao mesmo tempo a força da unidade, da ligação, misturada com a divisão, com a segregação e toda a força da separação. Analise-as particularmente e verás se minto. Deus possivelmente permite as criações humanas e suas tentativas de ligação, ajustamento e segurança a priori, para que frustrando-se, o homem saiba a posteriori que apesar do germe do “bem e do mal” em seu coração, há também nele a semente do espírito que Deus soprou com o poder de o aperfeiçoar em sua imagem e semelhança. Brincar de Deus criando é fantástico, maravilhoso, fenomenal, mas extremamente frustrante, impotente, improdutivo quando se vê o resultado final. Enfim, que o próprio homem reconheça isso por si só e se volte para o verdadeiro Creador. Mas voltemos a nossa questão chave: a religião.
O maior problema que enfrentamos quando analisamos a religião, é o fato de que a religião não existe. Mas você vai me perguntar: como assim a religião não existe? Não se pode pegar com as mãos a tal da religião, pode? A religião faz parte de projeção de nosso inconsciente coletivo, ela não tem vida própria, nós seres humanos é que a alimentamos e a damos “vida”. A religião é uma grande abstração, não é concreta, não é palpável, não é homem e nem mulher. Pode ser que seja um espírito (segundo alguns filósofos que entendiam espírito como projeção de idéias). Mas um espírito com germe de “bem e de mal” de onde provem? Deixo essas especulações metafísicas para serem respondidas “Naquele grande Dia” como diz nas escrituras. A religião é fruto de um coração sedento do divino que se volta pra fora nessa procura, ao invés de voltar-se pra dentro, no lugar onde Deus escreveu a sua “lei”, a sua “religação”. É no espírito humano que se encontra o divino e não em suas concreções.
A teoria junguiana das sombras é a mais perfeita para explicarmos “a maior obra-prima já erguida pelo coração humano”. Segundo Carl Gustav Jung (psiquiatra) o ser humano possui sombras (pecados para os cristãos) em seu ser que só são reconhecidas como estando lá por meio da luz. O Mestre já sabia disso, pois foi Jesus mesmo quem disse que é “do coração do homem que procede toda sorte de iniqüidades...”. Mas o homem pecador não sabe disso e para aliviar um pouco a dor de conviver com suas sombras, ao invés de buscar luz, prefere colocar a culpa sobre o “bode expiatório” (alusão a uma passagem de Levítico) achando que esse levará suas sombras. A religião tem sido para alguns o grande bode expiatório, assim como o Estado, a Política, A Sociedade e todas essas abstrações. Mas como culpar algo que não existe (pelo menos concretamente)? Estamos passando por um período de grande crise financeira mundial e dizemos: o grande culpado é a Nação americana. Mas a Nação é feita de pessoas, ou melhor, as pessoas é que criaram a Nação. Ninguém diz: a crise é culpa do homem, é reflexo de nossa própria sombra, é conseqüência do meu pecado. Porquê? Porque é mais cômodo projetar nossas sombras a algo metafísico, inexistente concretamente do que reconhecer nossas fraquezas. A religião coitada, não pode levar as nossas sombras porque ela não existe. A não ser como um espírito religioso que está no coração humano que insiste em dar de comer a um espírito maior, fruto de projeção de todas as sombras humanas.
Para mim hoje depois de todos os meus questionamentos, a questão da religião já está mais do que resolvida em meu coração. Ela não existe, a não ser em meu coração pecador e religioso. Nunca mais vou alimentá-la e dá-lhe “vida”(se Deus me der essa graça). Aos que me conheceram católico e se orgulhavam de “minha opção”, perdão. Aos que me queriam ver seguir o evangelho segundo Allan Kardec, perdão. Aos que esperavam de mim um mago, um guru ou um sacerdote, perdão. Aos que me viram evangélico e defensor ferrenho da “verdade” que descobri, perdão. Oficialmente por meio desse manifesto, declaro não ter vínculo nenhum com a religião, seja ela qual for e de qualquer natureza. Aqueles que tem ouvidos para ouvir ouçam e sei que me entenderão. Mas aqueles que não forem humildes para reconhecerem suas próprias sombras por estarem admirados com “a maior obra-prima já erguida pelo coração humano”, certamente me repudiarão, me perseguirão e me apedrejarão. Mas tão certo como Cristo vive em meu coração, estou também dessa decisão. No mais, estou aberto a pensamentos discordantes.
Um abraço a todos!
(Anderson)

Manifesto de um ex-idólatra


Quando lancei o “Manifesto de um ex- religioso” não tinha a idéia de como o assunto repercutiria e de como ele ajudaria a alguns, assustaria a outros e incomodaria a casta sacerdotal. Recebi feedbacks que agradeciam pelo texto e outros que me julgavam por ele. Certos “pastores” que me “amavam” (e esse amor só era válido enquanto fizesse parte da confraria deles), enviaram-me e-mails dizendo coisas do tipo: “que desperdício de inteligência”, “hoje vejo que verdadeiramente a letra mata” e outras idiotices parecidas. Uma “pastora” me condenou dizendo que eu não estava preparado para entrar em uma faculdade, que eu estava no engano, que denegria o evangelho e outras lorotas que prefiro não comentar. A vontade que tive era de mandar eles para “a ponte que caiu”, mas me controlei e preferi ficar quieto, pois quando lancei o manifesto a minha intenção era tão somente expurgar os demônios que me aprisionavam. Hoje, sem as escamas da religião que me cegava, começo a enxergar outros demônios e um deles a idolatria que era em mim (um bom protestante-evangélico-cristão-projetista-gadita-xiita, enfim, esse ser híbrido de cem cabeças que existe aí hoje) um pecado do qual eu nunca identificaria estando dentro do sistema híbrido.
Depois que comecei a perceber que tudo que às vezes parece ser na verdade não é, e que tudo que achamos que é na verdade é mera aparência como diria o bom e velho Platão, vi o quanto não via e era-me tão lógico, que de tão lógico e simples me tornou em complicação. Depois que identifiquei que o diabo muitas vezes sou eu com minhas atitudes, parei de demonizar os outros. “Um de vós é o diabo” disse Jesus aos seus discípulos se referindo a Judas que o ia trair. Mas quem nunca foi Judas? Que atire a primeira pedra. Quem nunca foi Adão e jogou suas culpas para outro? Entendo melhor hoje o que o Mestre queria dizer com: “Por que vês tu o argueiro no olho de teu irmão, porém não reparas na trave que está no teu próprio?” Não há nada que os homens façam de mal que eu potencialmente não tenha em mim o poder de fazer um dia. Como um bom “protestante-evangélico-cristão-projetista-gadita-xiita” que era, lembro-me de tantas vezes dando aula na igreja de como certos assuntos causavam excitação nos alunos. Quando o assunto era idolatria, coitados dos católicos. Eram os primeiros a serem apedrejados. Mas existe uma idolatria subliminar no meio protestante-evangélico a qual só se percebe por meio da libertação na Graça de Jesus.
Existe uma discussão filosófica muito interessante sobre aparência x realidade. Segundo Platão o nosso mundo é o mundo das aparências, de como as coisas aparecem mais que na verdade é apenas um reflexo de uma realidade ao qual ele chama de mundo das idéias. O que parece ser às vezes não é o que realmente é. O que quero dizer com isso é que o que somos como Ser, nem sempre é o que aparentamos ser. Existe ai uma grande diferença, diga-se de passagem os fariseus que exteriormente (aparentemente) eram “santos”, mas interiormente (no real) eram cheios de rapina e iniqüidades. A maior luta dos homens hoje é descobrir quem é para Aquele que o criou. O que mais se vê hoje é a morte do Ser em detrimento de uma crescente busca de “aparecer” e “parecer” ser aquilo que não se é (me perdoem, mas adoro filosofar). Vide a moda, os estilos prontos, as inúmeras filosofias a serem seguidas, as diversas religiões a serem abraçadas, os costumes herdados, a mente alienada pela tradição dos homens e toda a forma de morte do Ser e da individuação do homem. Somos seres únicos, singulares, ímpares, por isso me pergunto como fui durante tanto tempo alguém que não era o meu Ser, mas a aparência de um povo “protestante-evangélico-cristão-projetista-gadita-xiita”? Quando me “converti” e “projetei vida mansa” para mim, virei o pior dos diabos que se possa imaginar. Cortei meu cabelo cumprido que me “parecia” coisa do diabo, queimei meus cd´s de rock (que arrependimento! Se bem que tinha uns que precisava queimar mesmo,rs), proibi minha irmã de escutar “música do mundo” no meu aparelho de som, mudei meu linguajar, fiquei sério (pois essa é a postura cristã que se tem que ter), condenei a bebida, me exclui dos amigos “do mundo” e sorrateiramente fui deixando de Ser para aparecer e parecer um bom “protestante-evangélico-cristão-projetista-gadita-xiita”. Tornei-me um diabo adorador do diabo da idolatria que para os crentes aparece como culto a sua imagem e culto a aparência.
A aparência pra mim sempre foi muito importante. Como eu era preocupado com minha aparência! Preocupado com aquilo que os outros iam pensar de mim, com minha postura cristã que tinha sempre que dar bom testemunho e toda essa prisão da alma e do Ser. Com toda a certeza se somos luz do mundo e sal da terra, temos que dar bom testemunho mais isso não quer dizer que precisamos ser quem não Somos. Hoje me sinto livre (apesar de saber que a vida é contínuo processo de libertação em Deus) do culto as aparências, dessa idolatria subliminar que enlaçou-me a alma e fez-me perder minha identidade. No sistema híbrido protestante-evangélico ser luz no mundo e sal na terra é andar de terno e gravata nesse calor de quase 40 graus, dar glórias e aleluias em um intervalo de duas ou três palavras, ser visto sempre com a Bíblia debaixo do braço, não se misturar entre os “ímpios”, dar o dízimo como imposto mensal, ouvir o choro forçado de certos “adoradores” de Deus, etc. Depois que deixei a religião minha vida tem sido de fato Vida. Um dia resolvi ir num bar próximo a minha faculdade junto com alguns amigos para comemorar o fim das aulas e logo quando cheguei todos os meus outros amigos que estavam lá se assustaram dizendo: você por aqui, quem diria! As palavras deles tinham certo fundamento, pois sempre que o pessoal ia comemorar algo no bar eu sempre negava e ia pra casa, achando estar certo e eles no engano. Pensava eu: Se alguém da igreja passar e me ver ali vão falar que estou desviado ou coisa parecida. Culto a aparência! Culto a minha imagem como bom “protestante-evangélico-cristão-projetista-gadita-xiita”! Por esses dias conversando com uma amiga ela me disse que não participaria da festa de formatura porque ela não dançava e se dançasse tinha que deixar de tomar a “santa ceia” em sua denominação (uma das cabeças do híbrido sistema protestante-evangélico). Quanta idolatria camuflada de “santidade”! Quanto tempo perdido em vida e quanta vida perdida no tempo. O Evangelho é celebração da Vida, é afirmação da Vida, é alegria, é sociabilidade, é caminhada de erros e acertos, é prudência mais não é privação de prazer, é santidade mais não é viver de aparência do bem e sim Ser do bem. Hoje expurgo mais esse demônio. Amanhã expurgarei outros se Deus me iluminar na Graça. E para aqueles que porventura acharem que isto é ensino de demônios, ou que desviado estou, ou possesso, me consolo em Jesus que desde que os evangelhos contaram que os fariseus chamaram-no de Belzebu e possesso de demônios nada me assusta. Lembrem-se sempre: aquilo que parece ser não é e vice-versa. O diabo habita aonde a gente nunca imagina.
(Anderson )

O Cristo histórico


Antes de nos aprofundarmos na análise da humanidade e historicidade de Jesus, sentimos a necessidade de elucidar nosso objetivo final. Não é nossa intenção falar de religião, mesmo porque se analisarmos Cristo veremos que ele era um ser a-religioso. Mas porque sempre que se faz uma referência a Cristo, vinculamos ao falar de religião? Há com certeza toda uma estratégia nada inconsciente, planejada para não tomarmos consciência da ação libertadora que o estudo do Cristo histórico nos trás. Porque quando falamos de Hitler, não pensamos nem um pouco em seu fanatismo religioso, pois foi de fato provado pela história que tinha suas crenças? Falamos de Ghandi e de outros grandes homens e raramente os ligamos as suas crenças. Mas quando o assunto é Jesus Cristo a coisa começa a ficar diferente, e preferimos silenciarmos e deixar que a religião trate do assunto. Por quê? Porque como disse anteriormente (levando em consideração também o preconceito que isso envolve), estudar o Cristo homem pode trazer a consciência do processo libertador da humanidade e será com certeza uma pedra no sapato dos que detêm o poder de oprimir.
A primeira lição que aprendemos no nosso estudo do Cristo histórico é de sua consciência de um ser que pode e deve modificar a “realidade”. Como disse o sábio Paulo Freire, a realidade é construída e não é, como muitos pensam. O homem é ser histórico e isso porque é ele quem constrói a história e não ao contrário. Ele não deve ser moldado passivamente pelas circunstâncias, não deve tomar a forma daquilo que impõem a ele sem questionamentos, não deve deixar-se rotular por conceitos criados com o fim de fazer separação na humanidade em detrimento de uma lógica elitista. Cristo modificou a História, isso é fato. Ele provou com sua vida que o homem tem o poder de modificar as circunstâncias, provou que a realidade pode ser construída na prática de um ideal, e provou que ser livre é não deixar-se rotular. Os rótulos são criados, como disse anteriormente, para dividir a humanidade, anulando todo o sentimento de irmandade que impede guerras, ambições e injustiças. Na religião temos uma infinidade de rótulos que mais parece uma feira de produtos para todos os gostos. Somos católicos, evangélicos, espíritas, umbandistas, etc. Na política somos de esquerda ou de direita. Somos modernos, casuais, contemporâneos, temos um time de futebol (isso é máximo), uma escola de samba, uma nação (que certamente morreríamos por ela, concordam?). Cristo era livre disso. É só fazer uma análise de sua historicidade e chegaremos a essa conclusão.
Mas foi combatendo dois poderes que Cristo sofreu na própria pele toda a ira daqueles que não estavam satisfeitos com sua consciência histórica. Esses poderes eram o religioso e o político. O primeiro poder, o religioso, queria moldá-lo a pensar como estava em suas tradições e costumes. Queria torná-lo um ser que concordasse com o monopólio do conhecimento de Deus que só os fariseus, saduceus e outros eus tinham. Queriam esses que ele se silenciasse diante da diferenciação daqueles que detém o conhecimento de uma “verdade” e daqueles que são “massa de manobra, rebanho de ignorantes e não-iluminados”. Cristo trouxe o conhecimento de Deus para o mais simples, para o pobre, para o excluído e isso incitou à ira daqueles que estavam prestes a perder esse monopólio fantástico: Deus. O segundo poder que combateu foi o político, com sua negação do poder. Cristo negou toda forma de poder na sua pessoa. Há um episódio em que é relatado que ele fugiu para o monte quando o quiseram fazer rei. Foi perseguido por sua postura a-religiosa diante dos judeus, mas foi preso político e condenado por não se submeter às autoridades constituídas (o que os evangelhos dizem ser uma cilada para ele). Ensinou a “dar a César” somente o que era de César, mas nunca a sua própria liberdade e nem sua consciência histórica e humana.
Cristo é o arquétipo do homem integral, ou seja, modelo do homem holístico que enxerga a humanidade sem separações e sem diferenças. É modelo do homem católico (fazendo um trocadilho, pois católico quer dizer universal). Não teve preferência pelos pobres como afirma certa Teologia, simplesmente entre os ricos não foi bem quisto. “Veio para os seus, mas os seus não o receberam”, o que fez com que ele se identificasse com os excluídos, com os que sofrem, com aqueles que não conhecem seus direitos, com os pobres, com os deixados a margem, mas nunca deixando de amar toda a humanidade. Esse Cristo homem que modificou a História precisa e deve ser estudado sem preconceitos por todo historiador que quer ter a consciência de sua historicidade. Ter a consciência de Cristo é saber que somos agentes de transformação histórica e não meramente receptáculos passivos daqueles que fazem separação para melhor darem vazão aos seus desejos de poder e de domínio.

Sobre o Natal


Fim de ano. Época de festas e confraternizações. Tempo de reflexões e de esperanças que se renovam. Mais do que uma festa religiosa, o nosso natal é uma festa política e econômica. O natal para o ser humano é uma festa fantástica, pois traz no seu cerne a vontade de mudança, de humanidade e de recomeço. Mas o nosso natal cristão ocidental seria tão melhor se superasse sua hipocrisia. Na teoria nós humanos conhecemos muito bem a mensagem natalina: paz, esperança, igualdade e justiça. Mas na prática sabemos que não é assim. Cada um tem seu natal conforme sua “sorte”. O natal do rico não tem nada de igual com o natal do pobre, mas mesmo assim eles se cumprimentam, se abraçam e trocam desejos de esperança. Isso é simplesmente maravilhoso, não fosse o fato de só fazerem isso porque é natal e como todos sabem no natal se faz isso. Lindo seria se não fosse hipócrita, mas não vamos estragar o natal e sim denunciar quem é que realmente comemora essa festa “religiosa cristã”.
De festa religiosa cristã o natal não tem nada, é só perguntar a qualquer um sacerdote bem informado que ele lhe afirmará o que digo. O natal é uma continuação de comemoração dos solstícios de inverno comemorados antigamente nos países nórdicos. A chegada do sol por aquelas bandas era celebrada como a chegada de um deus que traria um novo começo, daí o nascimento de Cristo ser ligado a essa festa. O Jesus menino é o arquétipo de nossos anseios por um novo nascimento, uma nova vida e esperança de paz. Segundo Jung, arquétipos são projeções do inconsciente coletivo, modelos e padrões desejados pela humanidade. Outra figura simbólica que representa um grande arquétipo da humanidade é o famoso papai Noel.
Dizem que São Nicolau foi um bom velhinho que adorava presentear três crianças secretamente. Sua lenda deu origem ao gorducho e simpático velhinho que adora esvaziar o bolso de toda a humanidade. Nesse ponto papai Noel encarna bem o “espírito natalino”, pois como todos sabem o dinheiro não tem pátria, não tem religião, não tem cor e nem filhos prediletos. Que lindo, o dinheiro é tão democrático em suas escolhas. Só não é em sua distribuição. Pobre da criança que acredita que esse “bom velhinho” os presenteia sem barganhas, sem comércio e sem interesses.
Como arquétipo do inconsciente de nossa sociedade judaico-cristã-capitalista- ocidental, papai Noel é perfeito. Sua barba branca denota nossa sabedoria herdada da Grécia Antiga e seus filósofos. Sua morada em uma ilha no norte faz referência clara aos britânicos, iniciadores da atividade capitalista. Seu aspecto gordo simboliza a fartura e a abastança que a riqueza proporciona. Sua bondade reflete nosso desejo de sermos bons e esquecermos a maldade do mundo. Pena que estamos tremendamente equivocados. O arquétipo papai Noel não é tão bom assim. É só esperar por uns dias e veremos quantos nomes irão para o SPC e quantas pessoas chorarão por causa de suas dívidas contraídas durante o natal. E enquanto isso acontece, o espírito do “bom velhinho” encarnado nos shopping centers comemora o natal com muita alegria. Se Jung estivesse vivo entre nós certamente reconheceria papai Noel como projeção do inconsciente (às vezes parece consciente) coletivo de todo “velho e bom” capitalista, que tira proveito dessa grande festa “cristã” ocidental. É uma pena que Jung esteja morto. (Anderson)

Mulher

"Mulher, flor mais bela,
estação da primavera.
Mulher, beleza fascinante,
de perfume inundante.
Odor que me sacia,
meu pão de cada dia.
Formosura que mistura,
lucidez e loucura.
Fascínio e fissura,
amargura e doçura.
Mulher, amor que arrebata,
um jovem que se farta.
De uma vida sem a graça,
de uma mulher cheia de graça.
Mulher que um homem não se cansa,
de contemplar a sua dança.
Mulher que esta sempre na lembrança,
de um homem cheio de esperança." (Anderson)

Noite

"Noite, tranquila noite
capaz de me perturbar
Noite, tequila noite
embriaguez até o despertar
Noite de sono, noite de lua
Noite sedenta, noite nojenta
Me abandono em sua pele nua
na fria rua número setenta
Noite, bendita noite
capaz de me atormentar
Noite, maldita noite
lacrimejando meu olhar
Sono profundo, sonhos imundos
terror repentino em olhar de menino
Solidão lancinante em poder triunfante
capaz de matar o mais feliz dos amantes
Noite, sombria noite
necessidade de se encontrar
Admiração profunda e oculta
noturna fé, esperança de maré
Velha enxuta e culta
contemplando a dança da mulher
Noite, menina noite
como é negro o teu olhar
Noite, morfina noite
para aqueles que vão se drogar
Quietude do som trazendo o que é bom
pensamento obscuro num quarto escuro
Gritaria da alma, estuprando a calma
solidifica um muro em meu coração duro
Noite, fatídica noite
esperança do dia chegar
Noite, mística noite
simbiose da arte de amar
Noite de pranto, noite de santo
Noite de luta, noite de puta
Casal em crise a cada canto
vergonhas cobertas como manto
Noite,medonha noite
padece sempre o teu olhar
Foi-te, estranha noite
espero que para nunca mais voltar."