quarta-feira, 8 de abril de 2009

Manifesto de um ex-idólatra


Quando lancei o “Manifesto de um ex- religioso” não tinha a idéia de como o assunto repercutiria e de como ele ajudaria a alguns, assustaria a outros e incomodaria a casta sacerdotal. Recebi feedbacks que agradeciam pelo texto e outros que me julgavam por ele. Certos “pastores” que me “amavam” (e esse amor só era válido enquanto fizesse parte da confraria deles), enviaram-me e-mails dizendo coisas do tipo: “que desperdício de inteligência”, “hoje vejo que verdadeiramente a letra mata” e outras idiotices parecidas. Uma “pastora” me condenou dizendo que eu não estava preparado para entrar em uma faculdade, que eu estava no engano, que denegria o evangelho e outras lorotas que prefiro não comentar. A vontade que tive era de mandar eles para “a ponte que caiu”, mas me controlei e preferi ficar quieto, pois quando lancei o manifesto a minha intenção era tão somente expurgar os demônios que me aprisionavam. Hoje, sem as escamas da religião que me cegava, começo a enxergar outros demônios e um deles a idolatria que era em mim (um bom protestante-evangélico-cristão-projetista-gadita-xiita, enfim, esse ser híbrido de cem cabeças que existe aí hoje) um pecado do qual eu nunca identificaria estando dentro do sistema híbrido.
Depois que comecei a perceber que tudo que às vezes parece ser na verdade não é, e que tudo que achamos que é na verdade é mera aparência como diria o bom e velho Platão, vi o quanto não via e era-me tão lógico, que de tão lógico e simples me tornou em complicação. Depois que identifiquei que o diabo muitas vezes sou eu com minhas atitudes, parei de demonizar os outros. “Um de vós é o diabo” disse Jesus aos seus discípulos se referindo a Judas que o ia trair. Mas quem nunca foi Judas? Que atire a primeira pedra. Quem nunca foi Adão e jogou suas culpas para outro? Entendo melhor hoje o que o Mestre queria dizer com: “Por que vês tu o argueiro no olho de teu irmão, porém não reparas na trave que está no teu próprio?” Não há nada que os homens façam de mal que eu potencialmente não tenha em mim o poder de fazer um dia. Como um bom “protestante-evangélico-cristão-projetista-gadita-xiita” que era, lembro-me de tantas vezes dando aula na igreja de como certos assuntos causavam excitação nos alunos. Quando o assunto era idolatria, coitados dos católicos. Eram os primeiros a serem apedrejados. Mas existe uma idolatria subliminar no meio protestante-evangélico a qual só se percebe por meio da libertação na Graça de Jesus.
Existe uma discussão filosófica muito interessante sobre aparência x realidade. Segundo Platão o nosso mundo é o mundo das aparências, de como as coisas aparecem mais que na verdade é apenas um reflexo de uma realidade ao qual ele chama de mundo das idéias. O que parece ser às vezes não é o que realmente é. O que quero dizer com isso é que o que somos como Ser, nem sempre é o que aparentamos ser. Existe ai uma grande diferença, diga-se de passagem os fariseus que exteriormente (aparentemente) eram “santos”, mas interiormente (no real) eram cheios de rapina e iniqüidades. A maior luta dos homens hoje é descobrir quem é para Aquele que o criou. O que mais se vê hoje é a morte do Ser em detrimento de uma crescente busca de “aparecer” e “parecer” ser aquilo que não se é (me perdoem, mas adoro filosofar). Vide a moda, os estilos prontos, as inúmeras filosofias a serem seguidas, as diversas religiões a serem abraçadas, os costumes herdados, a mente alienada pela tradição dos homens e toda a forma de morte do Ser e da individuação do homem. Somos seres únicos, singulares, ímpares, por isso me pergunto como fui durante tanto tempo alguém que não era o meu Ser, mas a aparência de um povo “protestante-evangélico-cristão-projetista-gadita-xiita”? Quando me “converti” e “projetei vida mansa” para mim, virei o pior dos diabos que se possa imaginar. Cortei meu cabelo cumprido que me “parecia” coisa do diabo, queimei meus cd´s de rock (que arrependimento! Se bem que tinha uns que precisava queimar mesmo,rs), proibi minha irmã de escutar “música do mundo” no meu aparelho de som, mudei meu linguajar, fiquei sério (pois essa é a postura cristã que se tem que ter), condenei a bebida, me exclui dos amigos “do mundo” e sorrateiramente fui deixando de Ser para aparecer e parecer um bom “protestante-evangélico-cristão-projetista-gadita-xiita”. Tornei-me um diabo adorador do diabo da idolatria que para os crentes aparece como culto a sua imagem e culto a aparência.
A aparência pra mim sempre foi muito importante. Como eu era preocupado com minha aparência! Preocupado com aquilo que os outros iam pensar de mim, com minha postura cristã que tinha sempre que dar bom testemunho e toda essa prisão da alma e do Ser. Com toda a certeza se somos luz do mundo e sal da terra, temos que dar bom testemunho mais isso não quer dizer que precisamos ser quem não Somos. Hoje me sinto livre (apesar de saber que a vida é contínuo processo de libertação em Deus) do culto as aparências, dessa idolatria subliminar que enlaçou-me a alma e fez-me perder minha identidade. No sistema híbrido protestante-evangélico ser luz no mundo e sal na terra é andar de terno e gravata nesse calor de quase 40 graus, dar glórias e aleluias em um intervalo de duas ou três palavras, ser visto sempre com a Bíblia debaixo do braço, não se misturar entre os “ímpios”, dar o dízimo como imposto mensal, ouvir o choro forçado de certos “adoradores” de Deus, etc. Depois que deixei a religião minha vida tem sido de fato Vida. Um dia resolvi ir num bar próximo a minha faculdade junto com alguns amigos para comemorar o fim das aulas e logo quando cheguei todos os meus outros amigos que estavam lá se assustaram dizendo: você por aqui, quem diria! As palavras deles tinham certo fundamento, pois sempre que o pessoal ia comemorar algo no bar eu sempre negava e ia pra casa, achando estar certo e eles no engano. Pensava eu: Se alguém da igreja passar e me ver ali vão falar que estou desviado ou coisa parecida. Culto a aparência! Culto a minha imagem como bom “protestante-evangélico-cristão-projetista-gadita-xiita”! Por esses dias conversando com uma amiga ela me disse que não participaria da festa de formatura porque ela não dançava e se dançasse tinha que deixar de tomar a “santa ceia” em sua denominação (uma das cabeças do híbrido sistema protestante-evangélico). Quanta idolatria camuflada de “santidade”! Quanto tempo perdido em vida e quanta vida perdida no tempo. O Evangelho é celebração da Vida, é afirmação da Vida, é alegria, é sociabilidade, é caminhada de erros e acertos, é prudência mais não é privação de prazer, é santidade mais não é viver de aparência do bem e sim Ser do bem. Hoje expurgo mais esse demônio. Amanhã expurgarei outros se Deus me iluminar na Graça. E para aqueles que porventura acharem que isto é ensino de demônios, ou que desviado estou, ou possesso, me consolo em Jesus que desde que os evangelhos contaram que os fariseus chamaram-no de Belzebu e possesso de demônios nada me assusta. Lembrem-se sempre: aquilo que parece ser não é e vice-versa. O diabo habita aonde a gente nunca imagina.
(Anderson )

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